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Quando um bate-boca quase vira um incidente internacional ou como a boa educação pode ser esquecida na ânsia de ter vantagens

02/12/2009

Voltando de viagem, assisti a uma cena deplorável que quase põe a perder a imagem positiva associada aos brasileiros no exterior que trouxe de minha viagem. Parece invenção, mas meu avião foi atrasado por uma hora e 45 minutos em razão de um bate-boca entre uma compatriota nossa e um homem americano. Não acompanhei o incidente de perto, ouvi apenas algumas versões, umas com uma certa cara de verdade e outras fantasiosas ao extremo. Minha opinião sobre o acontecido foi bastante influenciada por fatos anteriores que presenciei, mas tento ser o mais imparcial possível.

As coisas iniciaram na viagem de ida, na classe econômica, claro, porque viajar de classe executiva ou primeira está cada vez mais proibitivo para seres normais. Estávamos sentados em nossos lugares designados, para o qual cada um de nós pagou o equivalente a um assento. No meio do avião, onde existem três poltronas em cada fila, em quatro filas seguidas estavam senhoras de uma mesma família, cada uma delas usando as três poltronas. Enquanto os seres normais usavam sua poltrona ou, no máximo, a poltrona vazia ao lado, essas mulheres viajaram deitadas em três poltronas. Alguém perguntou o que lhes dava direito diferenciado e uma delas agressivamente respondeu que cada uma delas havia comprado os três lugares, portanto, tinha direito líquido e certo sobre o espaço todo.

Bem, quem está indo passear, ficar uns dias de férias, não vai gastar tempo ou energia discutindo ou desconfiando da verdade dos outros. Ninguém de nós, meus companheiros de viagem e eu, perdeu mais de um segundo se perguntando se a história era verdadeira ou se elas estavam abusando de seu direito, “tirando vantagem” da situação. Percebemos apenas que estavam, de alguma maneira, comportando-se ironicamente, como se tivessem obtido uma vitória sobre os demais passageiros.  Segundo os comentários que faziam, estavam em New York para fazer compras e se divertir. O assunto foi esquecido e fomos curtir nossas férias.

Chegando no avião que nos traria de volta, encontramos nas primeiras fileiras as mesmas mulheres alegres, rindo, perguntando uma a outra em voz alta se estava bem instalada. Até perguntei se tinham comprado tudo o que precisavam e se tinham se divertido, obtendo como resposta um sim agradável e feliz.

De repente, portas fechadas, avião pronto para decolar, olho para a frente e veja uma das mulheres do grupo batendo em alguém, com outras pessoas tentando afastá-la. Não vi quem era o objeto da fúria, mas o bate-boca continuou por um tempo, com comissários tentando mediar, outros passageiros se envolvendo e até umas manifestações nacionalistas fora de propósito começaram a ser usadas.

Após quase uma hora, a polícia, tendo sido chamada, tirou todos os brigões para fora do avião e, após ouvir as partes, a pedido da companhia de aviação, exigiu que todos deixassem o avião. Logicamente tivemos que esperar que os bagageiros fossem retirados do avião para encontrar a bagagem deles, atrasando o vôo em quase duas horas. Havia mães com bebês no avião, pessoas de mais idade, todos sofrendo o inconveniente de ficar fechados dentro de uma cabine de avião por um tempos enorme, um coisa desagradável e inconveniente.

Diversas versões depois (teve até uma dizendo que a mulher tinha um câncer terminal e estava vindo para o Brasil fazer quimioterapia), cheguei a minhas próprias conclusões. Acredito que uma das mulheres estava sentada no lugar de um rapaz (ou senhor) americano. Na tentativa de usar o mesmo expediente para vir deitada, tentou entrar em acordo com ele para ocupar as três poltronas (como na viagem de ida). Ele não concordou e, aparentemente de forma rude, exigiu que ela saísse do lugar. Daí a briga aumentou, ela tentou bater nele e ele empurrou e tudo virou uma bagunça de acusações mútuas, discursos preconceituosos e, finalmente a polícia e a expulsão do avião.

Minha opinião, com as informações que tive, é que ninguém teve razão. Entretanto, o que me chama mais à atenção é essa ânsia de levar vantagem em tudo, essa necessidade de ser “esperto”, essa falta de consideração para com os outros, essa atitude arrogante de quem acha que pode tudo. Também me surpreende que algumas pessoas acham que o fato de ser brasileira faz com que naturalmente todos os outros brasileiros presentes prestem apoio, mesmo se ela não tenha razão. Ouvi coisas absurdas do tipo “nós, brasileiros temos que nos apoiar contra esses americanos que acham que são donos do mundo, pois estamos aqui gastando nosso dinheiro no país deles”. Faz sentido uma afirmaçnao dessas? Gastar nosso dinheiro em um país “compra” o direito de ser arrogante e mal educado?

Essa é uma atitude que vem se tornando comum demais, fruto da ignorância sobre o significado de cidadania, de comunidade, de limites ao seu espaço que não ultrapassem o do outro. É uma atitude que deve ser combatida pelas pessoas de caráter, que pretendem deixar um mundo melhor para seus filhos e netos. Eu usaria uma outra frase, eu diria: “nós, brasileiros, devemos dar bons exemplos para a construção de um mundo com mais respeito ao homem e ao ambiente em que todos vivemos”.

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  1. Fabiana permalink
    27/12/2009 15:38

    Mesmo como brasileira, Maria do Carmo, às vezes penso que o que mais se espera de um brasileiro é essa falta de consciência e mania de tirar vantagem do outro. Me parece que isso se arraigou na nossa cultura, algo típico de brasileiro. E quem é diferente, enfrenta a pecha do “caxias”, do “certinho” (escuto que sou certinha até em casa!). Acredito que a falta de respeito é o cerne de tudo, nossa falta de educação. Hoje todos sabem brigar por seus direitos. Mas será que sabem identificar exatamente quais são seus direitos?

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