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Uma reflexão sobre “depressão profissional”, será que tem como escapar? Parte I

30/06/2011

Inacreditável o número de pessoas deprimidas que tenho encontrado, a maioria por fatores relacionados ao trabalho. A causa de algumas é o ambiente corporativo, o dia-a-dia estressante em empresas altamente competitivas e sem muita preocupação real com o bem estar dos empregados. A de outras é a frustração associada ao desemprego ou a projetos mal sucedidos de reemprego ou reinvenção profissional.

No primeiro caso, é chocante descobrir que, apesar das propaladas abordagens modernas de administração priorizarem a satisfação dos empregados, ambientes colaborativos, momentos para a vida pessoal e familiar, muito poucas empresas realmente têm isso como prática diária. Na maioria das que eu conheço, as jornadas sem hora para acabar, a insegurança em relação à manutenção do emprego e a competição feroz produzem empregados cansados, estressados, angustiados. Do livro A Escola dos Deuses, de Stefano Elio D’Anna, pesquei um conceito, poluição psicológica, que define muito bem como ainda são a maioria dos ambientes empresariais. Ele explica, melhor do que eu faria, essa poluição psicológica como “o produto de um fluxo incessante de emoções desagradáveis, medo, inveja, ciúmes, pensamentos pequenos, discursos fúteis que envenenam o ar das organizações”.

Viver num ambiente desses parece ser uma coisa que ninguém desejaria. No entanto, as pessoas permanecem nos seus empregos, agarradas a uma coisa que as faz miseráveis e infelizes. Quando falo “as pessoas” falo de mim mesma, porque estive nesse situacão mais de uma vez. Pergunto-me por quê? Porque precisam de seus salários? É claro, se não precisassem estariam na praia ou em outro ambiente de lazer.

Será que não existem outras alternativas com salários tão bons ou talvez quase tão bons? Talvez um salário menor seja suficiente se vivermos uma vida mais saudável. Talvez a terapia do filho não seja necessária se puder contar mais com a mãe ou o pai, talvez algum médico seja dispensado se você estiver menos cansado, deprimido. Talvez sua família ache mais importante um pai ou mãe saudável, alegre e disposto do que uma viagem para a Disney.

Muitas vezes nem mesmo a possibilidade de outras alternativas é levantada. Nós nos acomodamos nessa espiral de sofrimento, criando nós mesmos barreiras limitantes que não nos permitem olhar além do ambiente que nos sufoca.

Minha opinião é que, muito mais do que o dinheiro, a necessidade de pertencer a um grupo, de ter um selo mantém muita gente trabalhando em empresas que não lhes trazem satisfação. O medo de perder a identidade profissional, mais do que o salário, mantém as pessoas sofrendo abusos intensos sem se mexer para buscar alternativas. A insegurança sobre a própria capacidade, a facilidade que temos de esquecer quem somos e quais são realmente nossas habilidades e experiências nos mantêm reféns de uma posição muitas vezes esgotada, para a qual não somos mais interessantes. E é aí que o círculo infernal se fecha porque o medo faz com que nos refugiemos em mais trabalho, nos afunda cada vez mais. Então, duas saídas são possíveis, a primeira é a empresa nos demitir e a segunda é ficarmos doentes.

Se a empresa nos demitir, vamos para o mercado de trabalho em busca das alternativas que não ousamos procurar por conta própria, numa posição mais favorável. Esse será o tema de uma próxima reflexão aqui mesmo. Se ficarmos doentes toda a carga trazida por uma situação dessa natureza vai se apresentar, a família inteira vai ser afetada, os amigos também e mesmo os colegas. Bem, acho que só o que posso sugerir no momento é uma grande reflexão sobre as amarras que prendem cada um de nós e em como sair delas ileso.

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12 Comentários leave one →
  1. 30/06/2011 19:04

    Sempre deliciada e abordando temas interessantes. Felizmente, pelo que convivi contigo no ambiente corporativo, sei que você é do tipo de profissional que tenta extrair o melhor das pessoas sem ser invasiva e fazendo o possível para cultivar um bom clima organizacional e entender o fator humano inerente ao trabalho.

    Sofri muito com isso, faço terapia até hoje e tomo remédios… realmente a nossa saúde é muito mais importante do que qualquer coisa. É muito triste ver a quantidade de empresas que mantem sua preocupação com saúde e qualidade de vida apenas no discurso!

    Mas são textos como o seu que ajudam pessoas que estão com esse tipo de problema a abrir os olhos.

    Grande beijo!

    • Maria do Carmo Marini permalink*
      30/06/2011 19:21

      Oi, Mariana, que bom saber que você tem essa imagem de minha passagem na sua vida. Fico feliz e orgulhosa! Realmente quero fazer desse tema um ponto de discussão em que todos nós possamos contribuir para tirar aqueles que ainda não se encontraram desse buraco negro que é a depressão. Sem falar que trabalho causando isso é mesmo muito ruim. Se você me autorizar, vou colocar seu comentário na Facebook, citando ou não a fonte, como você achar melhor. Lá fica mais fácil buscar contribuições para esse tema tão relevante e do qual se sabe muito pouco ainda. Beijos, querida. Aguardo sua manifestacão sobre a publicação no Face

  2. 30/06/2011 19:32

    Flor, pode publicar! Inclusive, pode acrescentar uma coisa: em decorrência desse estresse, tive convulsões. Durante vários anos tomei remédio, fiz exames e não obtive respostas. Ontem fui à um especialista do Hospital das Clínicas e recebi o diagnóstico definitivo de que não tenho qualquer problema neurológico, as convulsões foram produto de síndrome do pânico (que pode vir de um quadro depressivo não tratado e muito comum em pessoas bastante relacionais, que não deixam o convívio social mesmo quando deprimidas). E a confirmação disso é que após me desvencilhar do que me causava esse mal, não tive mais convulsões!

    Pode citar a fonte. É um prazer poder contribuir para a discussão desse tema.

    Beijo

  3. 30/06/2011 21:16

    Excelente abordagem, Carmo. Nossos instintos querem as velhas certezas. Não é preciso sar da zona de conforto. É só E P A N D I R a zona de conforto. Parabéns!

    • Maria do Carmo Marini permalink*
      30/06/2011 22:04

      Béia, querida. Adorei a forma como você falou de EXPANDIR. Estamos com alguns comentários no Face, quer repetir lá? Beijos

  4. 01/07/2011 9:48

    Carmo, gostei muito do texto; expressa realmente o desequilíbrio emocional e a epidemia de estresse que estamos vivendo.
    EXCELENTE tema para o nosso próximo Negócios de Mulheres.

    • Maria do Carmo Marini permalink*
      01/07/2011 21:22

      Grande ideia, parceira. Vamos organizar um próximo Negócios de Mulheres com esse tema. Tenho certeza de que fará diferença. Estamos com um início de discussão no Facebook sobre esse post, você não quer replicar esse comentário lá? Beijos

  5. Moema permalink
    05/07/2011 10:53

    Prezada Marini,
    Acompanho sempre seu site. E só posso dizer: mais um excelente artigo.
    De forma breve, conseguiu novamente abordar um assunto tão complexo. Parabéns também pela verdade com que se manifestou.
    Leio muitos artigos que falam de problemas corporativos, e que se esquecem de alertar que nós mesmos somos os maiores responsáveis pela nossa convivência ad eternum com esses problemas. Outro ponto perfeito é o alerta para as corporações, que muito falam, muito apregoam, mas (quase) nada efetivam.
    Parabéns também e novamente pela sua constante pesquisa sobre os temas que desenvolve. O trecho daquela psicóloga é certeiro como seu artigo. Nele, me marcou o seguinte: “discursos fúteis que envenenam o ar das organizações”. Fico CHOCADA como as pessoas gastam tempo remoendo internamente e em “rodas de terapias de grupo” no próprio ambiente de trabalho suas frustrações tantas vezes egoístas. Isso quando não espalham os terrorismos citados, procurando “compartilhar”/transferir para os outros suas amarguras/invejas profissionais. Têm tanta facilidade para despejar o fel durante o horário de trabalho em seus colegas, e nenhuma inciativa para procurar fazer uma auto-avaliação séria, sozinho ou com a ajuda de um bom profissional.
    É dureza. E nessa selva de loucuras, vamos tentanto (sobre)viver. Ainda bem que contamos com pessoas excelentes como você! Obrigada sempre!
    Besos

    • Maria do Carmo Marini permalink*
      05/07/2011 14:14

      Olá, Moema, que maravilha “ouvir” você. Realmente o assunto tem me chamado a estudar, observar e tentar de alguma maneira, compartilhando com pessoas como você, achar saídas menos sofridas para esse mal que vem dominando muita gente. Vou tratar em seguida da depressão dos que foram demitidos e não conseguem se reencontrar no mercado de trabalho. Tenho me deparado muito com isso também e sofri um pouco eu mesma. Gostaria de pedir sua autorizacão para publicar seu comentário no Facebook, onde a discussão tem sido mais animada, citando ou não a fonte, de acordo com sua vontade. Se você concordar em citar a fonte, por favor, me envie seu nome completo.

  6. Moema permalink
    05/07/2011 14:02

    Oi, agora é só para avisar que lá no título a palavra reflexão foi digitada errado: relfexão. Nem precisa publicar esse comentário, foi só mesmo pra te avisar, querida.
    besos

    • Maria do Carmo Marini permalink*
      05/07/2011 14:14

      Vou corrigir imediatamente, obrigada. Ossos do ofício… rsss

      • Moema permalink
        05/07/2011 16:34

        Olá, para mim será um prazer que meu comentário seja disponibilizado no Facebook. Pode citar, por favor, apenas Moema/Brasília.
        Besos

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