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Sobre o vazio da dor e da criação, por Fernanda Tavares

30/11/2012

Hoje o que me ocorre é um sentimento de profundo esgotamento. Esgotamento do planeta, esgotamento da economia, esgotamento das soluções já conhecidas. Nossa forma de enxergar o mundo e de nos relacionar com ele está esgotada e, no entanto, insistimos em fazer valer as mesmas soluções e propostas de sempre. Tudo isso pra fugir da angústia, a angústia do não saber, de onde brota nossa capacidade de criação.

Love (Two red hearts)Estou cansada da repetição, anseio pelo novo, não pelo gosto da novidade per se, mas por sentir que a repetição começa a significar a morte. Por outro lado, como dar a luz ao novo sem que o que o precede morra de alguma forma? Será que no fundo desse esgotamento está uma semente prestes a brotar?

No espaço de um mês vivi a morte do meu pai e acompanhei o nascimento de uma criança em uma família próxima. Natural nessas circunstâncias pensar sobre o significado da vida e da morte. Me parece que elas estão tão intimamente ligadas que não consigo separá-las. Assim, meu desejo profundo de evitar a morte do meu pai parece ser antagônico à possibilidade de perpetuação da sua vida… Pra mantê-lo aqui comigo eu precisaria ser capaz de, em alguma medida, congelar o tempo. O tempo que não pára e a quem peço que transforme as velhas formas do viver. Se a morte é o que de alguma forma viabiliza o nascimento, seja porque algumas almas precisam deixar este mundo para que outras retornem ou porque é preciso morrer para este mundo para renascer em outro, evitá-la seria uma forma de estagnação e, portanto, de esgotamento. A vida eterna nesse mundo, a exemplo do que se passa com os vampiros, não passa, portanto, de um aprisionamento. Não posso desejar isso a alguém a quem amo.

Por outro lado, é muito difícil reconhecer e aceitar que neste momento, de forma metafórica, estou desejando a morte. A morte de tudo o que é conhecido, dos velhos hábitos, das velhas saídas, das velhas crenças, atualmente limitantes. Vejo tantas coisas que já não servem mais! Mas assim como não tenho certeza do que acontece depois da morte física, não tenho certeza do que substituirá o que já não mais serve. Não tenho novas respostas pra colocar no lugar das antigas. Isso me faz entender o apego ao já conhecido e o medo em saltar no abismo. Até porque há muitos saltos que não se pode fazer acompanhada e isso, muitas vezes, eleva nosso receio à enésima potência. Além de não saber o que vou encontrar, estarei sozinha… Ainda assim, ficar onde estou não me parece mais uma opção tolerável. Não me resta outra alternativa, então, a não ser dar boas-vindas ao risco.

Tenho ouvido histórias de conhecidos do meu pai que dão a entender que ele sabia que ia morrer, teve algum tipo de pressentimento ou intuição. Não duvido que de fato ele soubesse, acho que bem no fundo todos nós sabemos quando alguma coisa está chegando ao final. Cheguei a sentir um pouco de raiva do meu pai ao pensar nessa possibilidade, a de que ele sabia e não tomou alguma ação pra evitar o desfecho (imaginando que isso fosse possível). Por outro lado, por mais que a gente tente se agarrar ao que se tem, isso só traz mais angústia e sofrimento porque há momentos em que precisamos aceitar que não há o que possa fazer pra evitar o fim, ele parece já ser uma realidade antes mesmo de o ser. Nesse caso, reconhecer sua proximidade e não lutar contra ele seria realmente uma forma de sabedoria e não de capitulação.

A verdade é que o sentimento é paradoxal e pensando nisso, negar o fim pode não ser uma forma de doença, mas um sinal de saúde, desde que não dure indefinidamente, é claro. Evitar a angústia, a tristeza, a dor, o sentimento de vazio é ser humano. O vazio, em especial, que pra mim tem como uma de suas representações um silêncio que antes não estava lá, tem uma dimensão avassaladora, não representa apenas o espaço pra criação. Não sei por quanto tempo dou conta dele, do vazio, mas tenho que encará-lo. Essencialmente porque tenho a esperança de que ele não durará para sempre, em algum momento posso resgatar minha identidade de criadora, mantendo humildemente minha consciência de criatura.

Agora, já, só me sei criatura, com pequenos lampejos de criadora. Enquanto isso, pra me inspirar, ouço Moska…

Tudo Novo de Novo (Moska)

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Fernanda Tavares Silva atua profissionalmente na área de Recursos Humanos, com foco em Desenvolvimento de Pessoas e está finalizando pós-graduação em Consultoria de Carreira.

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