Skip to content

A preguiça é necessária e pode ser bastante produtiva, por Lucy Kellaway

02/03/2015

“Recentemente, tomei um drink com uma amiga da época da universidade que é uma das mulheres mais ocupadas que conheço. Há anos ela tem um cargo importante em uma grande organização, ao mesmo tempo em que lida com um ex-marido, vários filhos e os pais, que estão muito velhos.Captura de Tela 2015-03-02 às 12.52.14

Mas, seis meses atrás, algo aconteceu. Ela se apaixonou e, assim, começou a querer passar todo o tempo livre com seu novo homem. O problema é que ela não tinha nenhum tempo livre. Assim, em vez de diminuir as horas que passava com os filhos, ela começou a trabalhar menos – bem menos.

Por ser sênior o suficiente para controlar sua agenda, ela agora chega ao escritório mais tarde, sai mais cedo e deixou de comparecer à maioria das reuniões. Ela não envia mais e-mails à noite e nos fins de semana. Evita encontros sociais e em vez de almoçar com contatos, prefere fazer isso com o namorado.

Captura de Tela 2015-03-02 às 12.56.37Na semana passada, perguntei a ela o custo que tudo isso está tendo para a sua carreira. Nenhum, respondeu, com um brilho triunfante no olhar. Estes estão sendo os melhores seis meses que ela já teve, período em que recebeu sua maior bonificação e que poderá resultar em um emprego ainda melhor.

Especulei que essa felicidade toda estaria sendo motivada pelo amor, que estava fazendo-a se sentir invencível. Afinal, a vida tem uma maneira injusta de oferecer grandes coisas às pessoas quando elas já estão com muita sorte. Nada disso, respondeu. Ela simplesmente descobriu que menos é mais. Ficou mais preguiçosa, o que a deixou muito mais concentrada. Assim, gasta tempo apenas com as coisas que realmente importam – todo o resto, ou ela não faz ou delega para alguém.

Essa experiência a conduziu a uma nova teoria sobre o sucesso que afirma que a preguiça é uma coisa boa. Somente sendo preguiçosos nos tornamos verdadeiramente eficientes e passamos a ver o que é importante e o que não é.Captura de Tela 2015-03-02 às 13.02.52

O problema com as mulheres, diz ela, é que nos esforçamos demais. Nos fazemos de mártires da perseverança e, em vez de isso ser nossa vantagem secreta, é nossa ruína. Se fossemos mais preguiçosas, estaríamos nos saindo melhor.

Ela não só está certa, como sua teoria é muito sedutora. “Faça acontecer”, diz a rainha corporativa Sheryl Sandberg, enquanto todo grande CEO alerta seus subordinados de que se eles não gostam de acordar às 4 horas da manhã e responder e-mails fazendo ginástica, nunca chegarão ao topo.

Captura de Tela 2015-03-02 às 13.07.00Minha amiga não é a primeira pessoa a ver isso como errado. Helmut von Moltke, comandante do exército prussiano, chegou lá um século e meio antes dela ao inventar uma das primeiras matrizes administrativas. Ele avaliava seus oficiais em duas escalas: inteligente vs. estúpido e preguiçoso vs. dinâmico. Dessa forma, surgiram quatro combinações: estúpido e preguiçoso – bom para executar ordens; estúpidos e dinâmicos – muitos perigosos, pois tomam decisões erradas; inteligentes e dinâmicos – oficiais de Estado-maior excelentes; inteligentes e preguiçosos – dão comandantes excelentes, pois apresentam resultados.

O sistema funcionou muito bem para o exército prussiano e certamente poderia funcionar muito bem nas corporações modernas. Mas, em vez de empregar algo tão estimulante e honesto, os teóricos da administração pegaram a ideia de Moltke e a arruinaram, transformando-a na moderna e sem graça matriz “skill-will” (na tradução literal, “habilidade-vontade”).Captura de Tela 2015-03-02 às 13.07.56

Segundo essa corrente, a pessoa que é inteligente e preguiçosa (ou “altamente habilidosa mas com pouca vontade”) não é tida como alguém que ganhou na loteria. Elas são percebidas como pessoas que precisam de orientação.

A preguiça, segundo a visão moderna, é como uma doença ou algo que precisa ser extirpado sob orientação. No entanto, conforme minha amiga demonstrou, o que vale é o inverso – a preguiça precisa ser incutida nos executivos mais graduados.Captura de Tela 2015-03-02 às 13.09.20

É preciso esclarecer, contudo, que o tipo de preguiça a ser encorajado não é a variedade negligente, que significa que você faz um trabalho ruim. Isso não é preguiça, é estupidez. O que precisamos é da versão inteligente, que surge da percepção de que há um custo de oportunidade para cada minuto que passamos trabalhando – de modo que precisamos usar nosso tempo de maneira sábia.

Nunca a magnanimidade da preguiça foi tão necessária no alto escalão. O trabalho duro não está prejudicando apenas executivos que dormem pouco, mas também as companhias que os empregam. Segundo um estudo feito pela consultoria Bain no ano passado, uma única reunião executiva por semana em uma grande empresa consome até 300 mil horas das pessoas por ano.

Captura de Tela 2015-03-02 às 13.11.14Um estudo parecido da McKinsey mostrou que só metade dos líderes das empresas dedicam tempo suficiente aos negócios prioritários, boa parte do dia eles desperdiçam com e-mails, reuniões, fofocas e “apagando incêndios”.

O amor curou minha amiga de tudo isso. Mas como esse método não é prático (e possivelmente não desejável), alguma outra coisa precisa ser feita. Felizmente, a maioria de nós é naturalmente preguiçosa e, assim, o que precisamos fazer é encontrar um jeito de trazer de volta à vida nosso preguiçoso interior. Ajustar o despertador para tocar uma hora mais tarde é uma boa maneira de começar.”

Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: