Olha só o cotovelo… virou star

Confetes e News, Jogando Conversa Fora

É a reunião anual das partes do corpo. Todos estão muito excitados. No geral, essas reuniões servem para contar vantagens, falar de algum desempenho excepcional ou mesmo reclamar das novas doenças que atingem cada órgão todos os anos. De qualquer maneira, mesmo em anos mais difíceis, são ótimos encontros, divertidos, cheios de música e flores. Quem sempre se alegra mais do que todos é o cérebro, pois tudo passa por ele antes de chegar aos outros.

Esse ano a reunião tem uma atração a mais, o Engenheiro Criador, uma espécie de Stan Lee do corpo humano. Ele vem, quase sempre em intervalos de 10 anos, para conversar com todos, contar as inovações que está pretendendo, ouvir sugestões de como melhorar o projeto e até atende a uma ou outra demanda.

A cada visita o Criador escolhe, entre todos os pedidos, somente um para atender ou mesmo nem atende a qualquer um. Esse ano não será diferente. Na última vez que veio, quem reclamou foi o cabelo, porque estava perdendo força e caindo muito em muitos casos. O EC prometeu a ele que alguns remédios, recentemente inventados pelos usuários, iriam melhorar esse problema, mas o cabelo acha que houve muito pouco progresso e está meio descontente.

Todos estão excitados, esperando a vez de apresentar suas reivindicações, com a possibilidade de ter seus desejos realizados. O cérebro, como sempre, vai pedir mais capacidade. O coração, sem dúvida virá com aquela lenta-lenga de sempre, falando que como os humanos acreditam que ele é responsável pelo amor, deveria ser capaz de realmente se apaixonar sempre.

A mão esquerda, ah, essa é uma eterna chata, vai reclamar que a direita é privilegiada, mais capaz de produzir. Como em outras ocasiões, o EC vai responder que, em alguns casos, mudou essa realidade, fez muitos canhotos. Entretanto, não pode mudar tudo, porque esse modelo vem funcionando desde sempre e ele não quer fazer mudanças radicais, por enquanto.

Claro, tem órgãos menos salientes, que quase nunca se manifestam, achando que seu papel não é tão importante assim para o funcionamento do corpo. É o caso do pâncreas, por exemplo, que descobriu, a partir de 1921, que, se der problemas, pode ser retirado e substituído por injeções ou bombas de insulina. Há muito tempo ninguém ouve uma palavra do pâncreas quando é a hora de falar com o Engenheiro.

O apêndice é mais um que fica silencioso num canto, pois seu papel na defesa do intestino é bem fraco e, se por acaso ele infecciona, precisa ser retirado com urgência, para não se tornar um problema realmente sério. E o intestino fica bem sem ele.

Todos sabem, sem dúvida, que existem outros que podem não ser imprescindíveis, pois se forem perdidos poderão ser substituídos por próteses ou reeducação. Uma perna, por exemplo, ou um olho, dentes, e todos os outros que estão aí para completar o conjunto, facilitando sua ação em harmonia.

O Engenheiro Criador chega no seu super carro, que circula entre nuvens, usando um combustível conhecido só por ele e brilhando ao sol. Senta-se na cadeira preparada para ele, uma cadeira simples, porque ele gosta de simplicidade. Ao fundo ouve-se o Bolero de Ravel, que ele adora, uma música com um único movimento que se repete, variando apenas de acordo com a forma que o arranjo é organizado. É o exemplo que ele cita para explicar como a simplicidade pode ter uma grande sofisticação.

A fila se forma e ele, pacientemente, ouve os que se apresentam, alguma apenas para saudá-lo, puxar os saco, sabe como é? Registra os pedidos com um olhar num moleskine de capa verde para lembrar-se sempre que desejar. Alguns pedintes se repetem sempre, e trazem os mesmos pedidos bobos. Ainda bem que a música o distrai, pois aparentemente hoje ele está meio sem paciência.

Eis que o fim da fila se aproxima e, quem vem lá? O cotovelo! O EC estranha, pois não lembra de ter atendido nenhum pedido do cotovelo nos últimos tempos. O cotovelo se aproxima e diz em voz não muito alta: “Senhor, gostaria de fazer uma observação e um pedido.”

Incentivado pelo EC, o cotovelo continua, desta vez em voz mais firme: “Creio que o senhor se dá conta que não sou um dos pedintes habituais, mas gostaria de chamar sua atenção para o fato de que os usuários do conjunto corpo mal se dão conta da minha existência.”

O Engenheiro ficou pensativo e falou: “Mas você tem um papel importante no conjunto. O braço se movimenta no seu eixo, sem você isso seria impossível. Como pode ser assim?”.

O cotovelo, com um leve sorriso irônico acrescentou: “Eu sei, mas eles não percebem. Só lembram de mim quando se machucam. Ou quando a pele que me cobre fica muito seca, aí vão atrás de cremes para me deixar suave. Ou quando me batem num canto de mesa e xingam, culpando a sogra por um pequeno choque com que eu os presenteio para que se lembrem de mim. A sogra, puxa! É muita humilhação.”

Foi aí que o EC falou: “Muito bem. Esse ano vou atender a sua demanda, cotovelo. O que você quer?”. O cotovelo, então disse: “Quero ser por um tempo um protagonista. Quero ser lembrado por todos. Quero aparecer na televisão do mundo inteiro.” O EC perguntou se isso era realmente o que ele queria, pois para atendê-lo teria que sacrificar muitos humanos. Como o requerente confirmou o que desejava, ele prometeu que atenderia.

Então, foi embora e criou… o COVID!

Agora, vemos em todos os lugares, as pessoas se cumprimentado com o cotovelo. Desde os mais simples até os dirigentes de países importantes, todos deixaram as mãos quietas, sem os tradicionais apertos, os abraços sumiram, os beijos nem se fala e, além de esconderem os rostos, cumprimentam-se, meio embaraçados, com os cotovelos.

E o cotovelo, vendo isso, derrama lágrimas de remorso, pois descobriu que seu desejo foi atendido em prejuízo de todos os usuários do conjunto corpo, pois eles estão ficando doentes e até morrendo.

Tudo o que ele quer é voltar para seu canto e apagar o pedido, mas não tem como. Enviou emails para outros órgãos pedindo ajuda, suplicando que eles reajam, não deixem a doença destruir mais. Conseguiu que um esforço concentrado seja feito mas, mesmo assim, ainda não chegou ao ponto de reverter o processo. Os pulmões são os mais afetados e lutam bravamente, mas muitos não são fortes o bastante.

O cotovelo quer esconder-se dentro de mangas bem escuras, mesmo nos dias mais quentes. Entretanto, a única coisa que ele pode fazer é aguardar ansioso por um remédio que dê fim a esse pesadelo. Como todos nós.

Nota: todas as fotos foram buscadas no Google, desculpem por não informar os autores.

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