Esta é a guerra da minha geração

Jogando Conversa Fora

Fiquei impressionada quando ouvi a frase: “Esta é a guerra da minha geração.” Foi dita por uma pessoa da minha idade, dessa geração dos Baby Boomers, que soube sobre as guerras pelas histórias dos seus pais e avós. O que me deixou mais chocada, no entanto, foi o fato de não ter antes identificado o momento com essa precisão.

Sem dúvida, a pessoa que falou isso tem mais familiaridade com o tema, pois nasceu numa Europa destruída, em fase de reconstrução e dominada pelos países vencedores. Para essas pessoas a guerra foi muito mais presente, mesmo sendo vista pelos olhos de seus genitores. As consequências foram reais e eles sofreram durante toda a sua infância.

Para nós, no Brasil, as Guerras Mundiais chegaram muito suavizadas, pois poucos brasileiros tiveram parte ativa nos conflitos. A Primeira Guerra Mundial foi a de nossos avós, no início do século. Somente uns poucos brasileiros estiveram na França durante o conflito e apenas depois de a guerra chegar quase ao final. Se eu pensar bem, não lembro de ouvir sobre esse assunto na minha casa ou na minha cidade.

A Segunda foi a de nossos pais e mães, em 30/40 quando eles estavam saindo da adolescência, iniciando a vida adulta, tentando fazer de seus sonhos juvenis uma realidade bonita. Eram capazes de entender e tomar partido e foi o que fizeram, de acordo com as máquinas de propaganda dos contentores.

Na minha cidade vivia um piloto que participou da guerra na Itália e escreveu um livro a respeito, contando a experiência mais como uma aventura do que algo muito cruel. Acho que foi a maneira que ele encontrou para exorcizar seus fantasmas. Eu o conheci mas, nas poucas vezes em que nos encontramos, ele não falou a respeito do assunto. E eu não perguntei, com receio de abrir cicatrizes ainda não totalmente curadas.

Meu pai que tinha um grande interesse pelas histórias da II Guerra e incutiu o mesmo em mim e nos meus irmãos, deixando de herança a mesma curiosidade. Vi muito filmes, reportagens e documentários, além de ler livros e mais livros sobre o assunto. Até hoje eu o faço, sempre tentando entender as razões que levam países a viver esse tipo de experiência.

Posso até ser acusada de faltar com o respeito com os mortos naquelas guerras, que foram num número muito maior, mas o que caracteriza a atual é a falta de sentido, mesmo que distorcido, que outras guerras tinham. Pensando sobre a “Guerra da Minha Geração” e comparando com as duas últimas, o mais complicado é a dificuldade de saber quem é o inimigo. Não temos dois lados, lutando por seus valores e crenças, temos uma humanidade assustada, governantes confusos criando regras conflitantes e profissionais de saúde lutando para fazer a coisa certa contra uma doença que tem algumas preferências, mas ameaça a todos.

As informações a que tive acesso mostram que minha geração é a que corre maior risco. A Europa está sendo destruída aos poucos, pois tem uma população mais velha. Em outros países, também, a faixa mais afetada e que tem o maior número de mortos é aquela com mais de 65 anos. Na África, com uma população mais jovem, a doença não tem sido tão impiedosa.

O Japão e a Coréia têm lidado relativamente bem com o vírus, mas no Japão o número de suicídios aumentou consideravelmente, principalmente entre as mulheres. A causa? O confinamento e a desesperança.

Estamos todos esperando por uma vacina e os laboratórios têm trabalhado sem descanso nessa busca. Entretanto, essa é uma solução que a mim não tranquiliza completamente. Ah, claro que vou tomar a vacina, pelo menos para que ela me traga mais um pouco de liberdade de movimento e de tranquilidade.

A dúvida que me mantém acordada, noite a pós noite é: “por que todos esses importantes laboratórios investiram tanto esforço numa vacina sem garantia de resultado e não em uma medicação eficaz?” A resposta que me assusta é: “medicamentos serviriam apenas para uma parte da população. Melhor ter vacina, pois todos terão que usar, doentes e não doentes.” Com isso, mais dinheiro irá para essa indústria, da qual todos nós dependemos totalmente.

Espero realmente estar enganada… as teorias da conspiração estão todas aí para escolhermos uma, se quisermos. Se não quisermos, teremos que nos agarrar à esperança e ao otimismo para dormir à noite e iniciar o novo ano acreditando no melhor.

A cada nova onda e novas cepas, vejo mais e mais brigas sem sentido, a politização do assunto, a crueldade com que as pessoas julgam quem não tem a mesma opinião. E, muito depressa, minha fé na humanidade e na sua capacidade de construir um futuro melhor vai se extinguindo. Não quero mais falar sobre o assunto, esse é meu último desabafo.

Sigo na minha vida, curtindo o que ela me traz de bom e agarrando-me a somente a um resquício de esperança. Quem sabe as crianças pequenas, que estão sendo criadas nesse mundo distópico de pessoas mascaradas, serão capazes de construir uma realidade muito melhor, liberando-nos para sorrir outra vez.

Fotos obtidas no google sem indicação de autoria

Olha só o cotovelo… virou star

Confetes e News, Jogando Conversa Fora

É a reunião anual das partes do corpo. Todos estão muito excitados. No geral, essas reuniões servem para contar vantagens, falar de algum desempenho excepcional ou mesmo reclamar das novas doenças que atingem cada órgão todos os anos. De qualquer maneira, mesmo em anos mais difíceis, são ótimos encontros, divertidos, cheios de música e flores. Quem sempre se alegra mais do que todos é o cérebro, pois tudo passa por ele antes de chegar aos outros.

Esse ano a reunião tem uma atração a mais, o Engenheiro Criador, uma espécie de Stan Lee do corpo humano. Ele vem, quase sempre em intervalos de 10 anos, para conversar com todos, contar as inovações que está pretendendo, ouvir sugestões de como melhorar o projeto e até atende a uma ou outra demanda.

A cada visita o Criador escolhe, entre todos os pedidos, somente um para atender ou mesmo nem atende a qualquer um. Esse ano não será diferente. Na última vez que veio, quem reclamou foi o cabelo, porque estava perdendo força e caindo muito em muitos casos. O EC prometeu a ele que alguns remédios, recentemente inventados pelos usuários, iriam melhorar esse problema, mas o cabelo acha que houve muito pouco progresso e está meio descontente.

Todos estão excitados, esperando a vez de apresentar suas reivindicações, com a possibilidade de ter seus desejos realizados. O cérebro, como sempre, vai pedir mais capacidade. O coração, sem dúvida virá com aquela lenta-lenga de sempre, falando que como os humanos acreditam que ele é responsável pelo amor, deveria ser capaz de realmente se apaixonar sempre.

A mão esquerda, ah, essa é uma eterna chata, vai reclamar que a direita é privilegiada, mais capaz de produzir. Como em outras ocasiões, o EC vai responder que, em alguns casos, mudou essa realidade, fez muitos canhotos. Entretanto, não pode mudar tudo, porque esse modelo vem funcionando desde sempre e ele não quer fazer mudanças radicais, por enquanto.

Claro, tem órgãos menos salientes, que quase nunca se manifestam, achando que seu papel não é tão importante assim para o funcionamento do corpo. É o caso do pâncreas, por exemplo, que descobriu, a partir de 1921, que, se der problemas, pode ser retirado e substituído por injeções ou bombas de insulina. Há muito tempo ninguém ouve uma palavra do pâncreas quando é a hora de falar com o Engenheiro.

O apêndice é mais um que fica silencioso num canto, pois seu papel na defesa do intestino é bem fraco e, se por acaso ele infecciona, precisa ser retirado com urgência, para não se tornar um problema realmente sério. E o intestino fica bem sem ele.

Todos sabem, sem dúvida, que existem outros que podem não ser imprescindíveis, pois se forem perdidos poderão ser substituídos por próteses ou reeducação. Uma perna, por exemplo, ou um olho, dentes, e todos os outros que estão aí para completar o conjunto, facilitando sua ação em harmonia.

O Engenheiro Criador chega no seu super carro, que circula entre nuvens, usando um combustível conhecido só por ele e brilhando ao sol. Senta-se na cadeira preparada para ele, uma cadeira simples, porque ele gosta de simplicidade. Ao fundo ouve-se o Bolero de Ravel, que ele adora, uma música com um único movimento que se repete, variando apenas de acordo com a forma que o arranjo é organizado. É o exemplo que ele cita para explicar como a simplicidade pode ter uma grande sofisticação.

A fila se forma e ele, pacientemente, ouve os que se apresentam, alguma apenas para saudá-lo, puxar os saco, sabe como é? Registra os pedidos com um olhar num moleskine de capa verde para lembrar-se sempre que desejar. Alguns pedintes se repetem sempre, e trazem os mesmos pedidos bobos. Ainda bem que a música o distrai, pois aparentemente hoje ele está meio sem paciência.

Eis que o fim da fila se aproxima e, quem vem lá? O cotovelo! O EC estranha, pois não lembra de ter atendido nenhum pedido do cotovelo nos últimos tempos. O cotovelo se aproxima e diz em voz não muito alta: “Senhor, gostaria de fazer uma observação e um pedido.”

Incentivado pelo EC, o cotovelo continua, desta vez em voz mais firme: “Creio que o senhor se dá conta que não sou um dos pedintes habituais, mas gostaria de chamar sua atenção para o fato de que os usuários do conjunto corpo mal se dão conta da minha existência.”

O Engenheiro ficou pensativo e falou: “Mas você tem um papel importante no conjunto. O braço se movimenta no seu eixo, sem você isso seria impossível. Como pode ser assim?”.

O cotovelo, com um leve sorriso irônico acrescentou: “Eu sei, mas eles não percebem. Só lembram de mim quando se machucam. Ou quando a pele que me cobre fica muito seca, aí vão atrás de cremes para me deixar suave. Ou quando me batem num canto de mesa e xingam, culpando a sogra por um pequeno choque com que eu os presenteio para que se lembrem de mim. A sogra, puxa! É muita humilhação.”

Foi aí que o EC falou: “Muito bem. Esse ano vou atender a sua demanda, cotovelo. O que você quer?”. O cotovelo, então disse: “Quero ser por um tempo um protagonista. Quero ser lembrado por todos. Quero aparecer na televisão do mundo inteiro.” O EC perguntou se isso era realmente o que ele queria, pois para atendê-lo teria que sacrificar muitos humanos. Como o requerente confirmou o que desejava, ele prometeu que atenderia.

Então, foi embora e criou… o COVID!

Agora, vemos em todos os lugares, as pessoas se cumprimentado com o cotovelo. Desde os mais simples até os dirigentes de países importantes, todos deixaram as mãos quietas, sem os tradicionais apertos, os abraços sumiram, os beijos nem se fala e, além de esconderem os rostos, cumprimentam-se, meio embaraçados, com os cotovelos.

E o cotovelo, vendo isso, derrama lágrimas de remorso, pois descobriu que seu desejo foi atendido em prejuízo de todos os usuários do conjunto corpo, pois eles estão ficando doentes e até morrendo.

Tudo o que ele quer é voltar para seu canto e apagar o pedido, mas não tem como. Enviou emails para outros órgãos pedindo ajuda, suplicando que eles reajam, não deixem a doença destruir mais. Conseguiu que um esforço concentrado seja feito mas, mesmo assim, ainda não chegou ao ponto de reverter o processo. Os pulmões são os mais afetados e lutam bravamente, mas muitos não são fortes o bastante.

O cotovelo quer esconder-se dentro de mangas bem escuras, mesmo nos dias mais quentes. Entretanto, a única coisa que ele pode fazer é aguardar ansioso por um remédio que dê fim a esse pesadelo. Como todos nós.

Nota: todas as fotos foram buscadas no Google, desculpem por não informar os autores.

Como ficamos?

Confetes e News, Jogando Conversa Fora

Meses de isolamento, máscaras e poucas interações com muitas pessoas que nos trazem normalmente muito prazer, têm produzido mudanças em todos nós. Apesar de estarmos aprendendo muito sobre relacionamentos através dos telefones e computadores e sobre trabalho à distância, a despeito de estarmos discutindo o mundo fascinante que emergirá desse ano abominável, os sinais que herdaremos física e emocionalmente são visíveis.

Hoje fiz uma selfie, usando conselhos de minha irmã, que sabe muito mais do que eu, e me deu algumas aulas. Confirmei algo que já tinha notado quando dei uma entrevista há alguns dias atrás: envelheci vários anos em 2020. Meu olhar voltou a ser triste, mesmo que eu esteja feliz, curtindo o simples dia-a-dia com meu marido e observando Roma pela janela. Com todos os bons momentos que tenho vivido, as notícias dos jornais me trazem insegurança e medo do futuro. A ignorância e a disputa política em torno do vírus, me faz cada dia ficar mais triste e preocupada.

Vacinas estão sendo anunciadas para o início de 2021. Pessoas corajosas e benevolentes estão aceitando ser cobaias, mas nenhum laboratório quer ser responsabilizado por aquilo que não der certo. Claro que, mesmo que as vacinas sejam ainda duvidosas, as pessoas irão buscar. Ninguém aguenta mais essa situação. Muitos decidiram enfrentar o vírus sem pensar que podem infectar outros menos resistentes. Eu não condeno ninguém pois sou capaz de entender o desespero das pessoas.

A Europa está de joelhos, tentando achar uma maneira de diminuir esse segundo momento do vírus. Lockdowns, estado de emergência, cores para as regiões determinando as medidas que devem ser adotadas, cidades fechadas, apelos para as pessoas ficarem o maior tempo possível em casa, nada disso tem resolvido. Não tenho notícias da Ásia e da África, nem imagino o que possa estar acontecendo.

Estou pedindo ao verão que proteja o Brasil, pois nem sou capaz de conjecturar sobre um repique da doença na força que parece ser sua característica. Sem dúvida, poderá destruir o que resta de meu amado país. Hoje fiquei sabendo que aí o vírus está aumentando nas classes A e B, graças a festas e encontros. Essas pessoas tem acesso a bons serviços de saúde, mas representam o potencial de infectar pessoas de classes mais frágeis em relação à disponibilidade da saúde pública. Assustador!

O que vai acontecer quando tirarmos as máscaras? Essa é uma pergunta que me faço todo dia. Agora, fomos reduzidos a falar, mostrar o que sentimos, sofrer ou estar felizes, apenas com os olhos. outro dia caí na rua e fui auxiliada por um par de olhos generosos, mas se os encontrar outra vez na rua não serei capaz de reconhecer. Não sabemos mais quem somos e quem são os outros.

Quando eu vi essa foto, uma noiva e suas damas de honra usando máscaras, quase chorei. As máscaras são lindas, bordadas, combinando com o vestido da noiva, mas mesmo assim, escondem sorrisos e emoções. Um momento especial desses sem rosto?

A tristeza de meus olhos tem razão de ser, afinal.

Fotos arquivo pessoal, Unsplash (Ashkan Forouzani) e Facebook

Atire a primeira pedra…

Confetes e News, Jogando Conversa Fora

Atualmente, a perplexidade tem dominado meus pensamentos mas, mais do que tudo, o momento tem iluminado verdades conhecidas, mas ignoradas durante muito tempo. Somente nos últimos dias me dei conta de como posso – e outros também podem – ser hipócrita sem perceber e sem trazer sentimentos de arrependimento ou constrangimento. Sou naturalmente gentil, o que me leva muitas vezes a usar de uma certa falsidade para manter essa característica.

Hipocrisia ou gentileza? Onde está o limite entre ser gentil e ser hipócrita? Sou só eu, ou vocês também têm que lidar com esse questionamento.

Você nunca teve aquele momento em que chamou de linda uma amiga, apenas para que ela se sentisse melhor, mesmo sabendo que ela é feinha? Você não “mente” quando come alguma coisa que detesta, apenas porque alguém cozinhou para você?

Essas situações são frequentes no dia-a-dia e mostram nosso lado menos honesto ou autêntico… Ou apenas bem educado e gentil?

Já passei por muitos momentos desse tipo. Nunca esqueço de uma festa de aniversário de uma menina que era colega do meu filho na escola (eles tinham uns 5 anos), e a única comida servida era sarapatel. Foi uma das coisas mais horríveis que eu já comi, mas quando a dona da festa me perguntou sorridente se eu tinha gostado, eu disse sim, apenas para não ser desagradável com ela. Tenho dezenas de exemplos semelhantes a esse e você possivelmente também tem.

Circunstâncias como as descritas acima têm se repetido constantemente, especialmente nesse tempo de isolamento social. Nossas relações estão passando por modificações sobre as quais não temos controle, então a “hipocrisia do bem” se torna uma alternativa para não apenas fazer uma ou outra cortesia, mas também para esconder algumas verdades sobre nós mesmos.

Num tempo em que nossos referenciais éticos e morais estão sendo questionados, em que a liberdade de uns pode ofender outros sem consequências, em que nossas crenças vêm sendo derrubadas pelo politicamente correto, como não agir com menos autenticidade? Muitas vezes, sentimos até vergonha de não concordar com a maioria, temos medo de parecer retrógrados, preconceituosos. É mais que hipocrisia do bem, é hipocrisia de aceitação, a obrigatoriedade de pensar igual à ideia predominante para fazer parte da tribo que admiramos. Esse tipo de comportamento tem feito muitas vítimas.

A “hipocrisia do bem ou da aceitação”, muitas vezes vem nos ajudar nas trocas, no amor, na amizade, nas relações sociais e de trabalho. É possível que realmente acreditemos nisso ou essa é apenas uma desculpa para atitudes menos nobres de nossa parte?

No meu caso, o que me leva a agir assim? O que me faz ser hipócrita, com a pretensão de ser gentil? Será um sentimento de superioridade, que me faz acreditar que minha opinião pode ser importante para outras pessoas? Agradar aos outros me faz sentir melhor? Sem dúvida ambos conceitos podem ser verdadeiros e isso não me faz uma pessoa melhor, mas me faz uma pessoa pior. Não quero ser essa pessoa pior e, mesmo que eu ache uma explicação lógica – e até generosa – para minhas atitudes, sempre ficarei em dúvida.

Minhas verdades podem ser disfarçadas, sem com isso me transformar em mentirosa e falsa, má, desonesta ou desleal. Ou não? É meramente uma forma de me enfeitar para as pessoas que amo e admiro? Ou de fingir que sou melhor? quem sabe devo apenas ficar quieta?

Gentileza é fundamental em uma civilização, onde vivemos juntos, em comunidades ampliadas pela tecnologia e pelos muitos meios de comunicação pessoal. É duro quando devemos escolher entre sermos gentis de verdade ou sermos hipócritas mesmo.

Atire a primeira pedra quem nunca…

Fotos: unsplash e google

E essa tal felicidade?

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“A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior”. Li isso na Wikipedia, que tem sido minha companheira constante para estudos variados nos momentos em que fico em casa.

Nesse tempos obscuros, é bom dar uma olhada nos aspectos brilhantes da vida, no amor, na saúde e… no que nos faz felizes.  Vai daí, pensei com meus botões: que tal falar um pouco sobre esse tema tão importante para a vida e as carreiras das pessoas? E essa tal felicidade? Onde encontramos?

Então, sente na sua poltrona favorita e me acompanhe. Se ainda tiver um copo de vinho ou um bom uísque será melhor ainda.

Desde as primeiras eras, a busca por definir e manter a felicidade tem sido tema de inúmeras reflexões de estudiosos. Nos tempos atuais, psicólogos humanistas iniciaram um movimento novo, a psicologia positiva, que recomenda que os profissionais contemporâneos da área adotem “uma visão mais aberta e apreciativa dos potenciais, das motivações e das capacidades humanas”, enfatizando mais a busca pela felicidade humana que o estudo das doenças mentais.

Os estudiosos ligados a essa corrente, concluíram que uma personalidade emocionalmente equilibrada relaciona-se melhor com a felicidade. A estabilidade emocional protege a pessoa contra as sentimentos negativos e prevê uma inteligência social* mais elevada, que colabora na formação e continuidade da coexistência harmoniosa com outras pessoas.

Aqueles que confiam mais nos outros têm maiores possibilidades de comunicar-se bem com mais pessoas, pois também desfrutam de maior inteligência social.

Bons relacionamentos têm a vantagem adicional de criar grupos de apoio para momentos de necessidade, de solidão ou de frustração. Interagir socialmente é um dos aspectos mais importantes para a felicidade.

Alcançar sucesso e realização impõe também que sejam reconhecidos aspectos positivos ao seu redor, demanda enxergar “o lado ensolarado da vida”. A atividade física, a meditação, o lazer, a distração, a família, os amigos, a natureza, a arte, os estudos e, principalmente o amor, são alguns desses aspectos prazerosos. Nem falo de viagens porque no momento isso não está fácil. Claro que depende daquilo que você tem, do que gosta e do que pode fazer. 

Nesse tempo de isolamento, usar as possibilidades que a tecnologia coloca a nosso dispor é a forma mais fácil de obter satisfação com o que a vida tem de bom para nos mostrar. Afinal, nunca se pensou que, em tão pouco tempo, tantas pessoas se familiarizariam com tantas alternativas técnicas.

Redes sociais, aplicativos, buscadores, transmissão online de conteúdo, conversas e filmes, compras, trabalho remoto, video-conferências, são as alternativas que ora estão disponíveis para mantermos nossos relacionamentos, nosso conhecimento e nosso relaxamento e alegria. Sem deixar de lado o velho telefone, que agora é uma ferramenta moderna e acessível a quase todo mundo.

Entretanto, mais do que tudo, saber o que é importante para você, o que lhe traz alegria e autoconfiança é o início de uma trajetória mais enriquecedora. A partir desse conhecimento sobre você mesmo e seus valores, você pode pensar em como aumentar episódios aprazíveis, repeti-los mais vezes e torná-los a base de sua satisfação. 

É preciso ter sempre presente, entretanto, que lamentações constantes, pensamento negativo, falta de confiança nas possibilidades que a vida traz são determinantes para que o fracasso se concretize.

Ah, mais do que tudo, histórias de tragédias, animaizinhos maltratados, crianças abandonadas, opiniões contraditórias sobre cuidados com a saúde podem ser determinantes em processos de pessimismo e depressão.

Enfim, tendo clareza sobre o melhor para você, no que acredita, o que lhe traz satisfação, com quais pessoas pode contar, você poderá direcionar sua vida de uma maneira que lhe traga mais significado e propósito. Com isso, sem dúvida você irá encontrar essa tal felicidade!

Falarei mais sobre isso em breve. Acompanhe.

Informações principais pesquisadas em: Wikipedia; The Economist – 2010 – “Age and Happiness – The U-bend of Life); HSA – Happiness Studies Academy (Dr. Tal Ben Shahar)

Fotos (na ordem): Olia Nayda, Benin Donmez, Tegan Mierle, Dustin Belt e stateofmind.it.

… precisamos falar sobre…*

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Andei relendo nos últimos meses a série “Os Reis Malditos”, onde Maurice Druon** conta a história dos reis Capetos, desde Filipe, o Belo até o rei João II. No livro 7 da série, “Quando um Rei Perde a França”, o autor escreveu isso:

Foto Nik Shuliahim

“O homem é semelhante a um cego que quer negar a luz porque não pode vê-la. A luz é um grande mistério para um cego.”

Esse parágrafo do livro me fez viajar numa longa pesquisa sobre a predisposição que faz com que todos nós tenhamos necessidade de atribuir características humanas a elementos não humanos. Os grandes mistérios a que somos expostos só são imaginados quando os transformamos em imagens concretas. Vai daí que um cego não consegue imaginar a luz porque nunca a viu.

A necessidade humana de tornar concreto qualquer pensamento, de personificar crenças e valores é algo extremamente limitante. Dificulta a fé, por exemplo – alguém consegue pensar em Deus sem ter em mente um velho senhor de barbas brancas? – assim como coloca barreiras à imaginação. Não permite também que o homem esteja aberto a outras dimensões ou universos paralelos, pois sempre que esses dois conceitos nos são exibidos, são baseados em nossa própria realidade.

A criatividade, então, nem se fala. Filmes e livros de ficção trazem seres feitos de luz, por exemplo, mas em formatos humanoides, outros que lembram animais, outros ainda com diversos olhos ou bocas e muitas criaturas exóticas, todas baseadas no que existe no nosso Universo. Se não fosse assim, como mostrar qualquer coisa? (foto Josh Hild)

Empresas usam a personificação, ou linguagem comum para criar propagandas de seus produtos. Essa forma de expressão cria emoções e interação social entre produtos e consumidores, forjando elos de relacionamento. Assistentes personalizados com nome, forma física e voz humana trazem sensações de acolhimento e compreensão.

Isso se chama antropomorfismo. Segundo a Wikipedia, o antropomorfismo é o pensamento que atribui características ou aspectos humanos a animais, deuses, elementos da natureza e constituintes da realidade em geral. (foto copiada de locomotiva26.com.br) Veja Calvin e Haroldo, um menino de seis anos e seu tigre de pelúcia que é seu amigo e confidente.

Nossa incapacidade de imaginar sem usar uma referência concreta talvez seja o que nos manteve incapazes de viajar a outros mundos até agora. Eventualmente essa é a razão de, ao pensarmos em universos paralelos, a primeira ideia que surge é de outros macro-cosmos semelhantes ao nosso, mesmo que existam teorias que desmentem essa crença.

Adoro ficção científica, mesmo que ela use sempre as referências do nosso próprio Universo. Leio e assisto com imenso prazer porque, a mim, desperta a insaciável curiosidade de saber mais e mais. (foto copiada de Turno Zero)

No entanto, o que está à minha mão é esse mundo cheio de contradições, guerras, amores, obras maravilhosas de natureza e, principalmente, aquilo de bom que o homem ainda é capaz de fazer.

Lamento apenas que precisemos viver nossas vidas sabendo que, por enquanto, não temos escapatória para um lugar melhor ou um futuro esperando para nos premiar. Vamos gastar toda nossa energia em fazer desse um mundo melhor! Claro que isso não nos impede de sonhar e imaginar. E nossos netos ou bisnetos poderão ser livres de nossas limitações.

*esse título é inspirado na série “The Young Pope” e na sua sequência “The New Pope”, ambas interessantes e disponíveis na Amazon.

** Maurice Druon, (abril/1918 – abril/2009), escritor francês premiado, foi Ministro da Cultura e de Negócios Culturais em diferentes momentos da França, Recebeu a Grande Cruz da Legião de Ouro.