… precisamos falar sobre…*

Andei relendo nos últimos meses a série “Os Reis Malditos”, onde Maurice Druon** conta a história dos reis Capetos, desde Filipe, o Belo até o rei João II. No livro 7 da série, “Quando um Rei Perde a França”, o autor escreveu isso:

Foto Nik Shuliahim

“O homem é semelhante a um cego que quer negar a luz porque não pode vê-la. A luz é um grande mistério para um cego.”

Esse parágrafo do livro me fez viajar numa longa pesquisa sobre a predisposição que faz com que todos nós tenhamos necessidade de atribuir características humanas a elementos não humanos. Os grandes mistérios a que somos expostos só são imaginados quando os transformamos em imagens concretas. Vai daí que um cego não consegue imaginar a luz porque nunca a viu.

A necessidade humana de tornar concreto qualquer pensamento, de personificar crenças e valores é algo extremamente limitante. Dificulta a fé, por exemplo – alguém consegue pensar em Deus sem ter em mente um velho senhor de barbas brancas? – assim como coloca barreiras à imaginação. Não permite também que o homem esteja aberto a outras dimensões ou universos paralelos, pois sempre que esses dois conceitos nos são exibidos, são baseados em nossa própria realidade.

A criatividade, então, nem se fala. Filmes e livros de ficção trazem seres feitos de luz, por exemplo, mas em formatos humanoides, outros que lembram animais, outros ainda com diversos olhos ou bocas e muitas criaturas exóticas, todas baseadas no que existe no nosso Universo. Se não fosse assim, como mostrar qualquer coisa? (foto Josh Hild)

Empresas usam a personificação, ou linguagem comum para criar propagandas de seus produtos. Essa forma de expressão cria emoções e interação social entre produtos e consumidores, forjando elos de relacionamento. Assistentes personalizados com nome, forma física e voz humana trazem sensações de acolhimento e compreensão.

Isso se chama antropomorfismo. Segundo a Wikipedia, o antropomorfismo é o pensamento que atribui características ou aspectos humanos a animais, deuses, elementos da natureza e constituintes da realidade em geral. (foto copiada de locomotiva26.com.br) Veja Calvin e Haroldo, um menino de seis anos e seu tigre de pelúcia que é seu amigo e confidente.

Nossa incapacidade de imaginar sem usar uma referência concreta talvez seja o que nos manteve incapazes de viajar a outros mundos até agora. Eventualmente essa é a razão de, ao pensarmos em universos paralelos, a primeira ideia que surge é de outros macro-cosmos semelhantes ao nosso, mesmo que existam teorias que desmentem essa crença.

Adoro ficção científica, mesmo que ela use sempre as referências do nosso próprio Universo. Leio e assisto com imenso prazer porque, a mim, desperta a insaciável curiosidade de saber mais e mais. (foto copiada de Turno Zero)

No entanto, o que está à minha mão é esse mundo cheio de contradições, guerras, amores, obras maravilhosas de natureza e, principalmente, aquilo de bom que o homem ainda é capaz de fazer.

Lamento apenas que precisemos viver nossas vidas sabendo que, por enquanto, não temos escapatória para um lugar melhor ou um futuro esperando para nos premiar. Vamos gastar toda nossa energia em fazer desse um mundo melhor! Claro que isso não nos impede de sonhar e imaginar. E nossos netos ou bisnetos poderão ser livres de nossas limitações.

*esse título é inspirado na série “The Young Pope” e na sua sequência “The New Pope”, ambas interessantes e disponíveis na Amazon.

** Maurice Druon, (abril/1918 – abril/2009), escritor francês premiado, foi Ministro da Cultura e de Negócios Culturais em diferentes momentos da França, Recebeu a Grande Cruz da Legião de Ouro.