Esta é a guerra da minha geração

Jogando Conversa Fora

Fiquei impressionada quando ouvi a frase: “Esta é a guerra da minha geração.” Foi dita por uma pessoa da minha idade, dessa geração dos Baby Boomers, que soube sobre as guerras pelas histórias dos seus pais e avós. O que me deixou mais chocada, no entanto, foi o fato de não ter antes identificado o momento com essa precisão.

Sem dúvida, a pessoa que falou isso tem mais familiaridade com o tema, pois nasceu numa Europa destruída, em fase de reconstrução e dominada pelos países vencedores. Para essas pessoas a guerra foi muito mais presente, mesmo sendo vista pelos olhos de seus genitores. As consequências foram reais e eles sofreram durante toda a sua infância.

Para nós, no Brasil, as Guerras Mundiais chegaram muito suavizadas, pois poucos brasileiros tiveram parte ativa nos conflitos. A Primeira Guerra Mundial foi a de nossos avós, no início do século. Somente uns poucos brasileiros estiveram na França durante o conflito e apenas depois de a guerra chegar quase ao final. Se eu pensar bem, não lembro de ouvir sobre esse assunto na minha casa ou na minha cidade.

A Segunda foi a de nossos pais e mães, em 30/40 quando eles estavam saindo da adolescência, iniciando a vida adulta, tentando fazer de seus sonhos juvenis uma realidade bonita. Eram capazes de entender e tomar partido e foi o que fizeram, de acordo com as máquinas de propaganda dos contentores.

Na minha cidade vivia um piloto que participou da guerra na Itália e escreveu um livro a respeito, contando a experiência mais como uma aventura do que algo muito cruel. Acho que foi a maneira que ele encontrou para exorcizar seus fantasmas. Eu o conheci mas, nas poucas vezes em que nos encontramos, ele não falou a respeito do assunto. E eu não perguntei, com receio de abrir cicatrizes ainda não totalmente curadas.

Meu pai que tinha um grande interesse pelas histórias da II Guerra e incutiu o mesmo em mim e nos meus irmãos, deixando de herança a mesma curiosidade. Vi muito filmes, reportagens e documentários, além de ler livros e mais livros sobre o assunto. Até hoje eu o faço, sempre tentando entender as razões que levam países a viver esse tipo de experiência.

Posso até ser acusada de faltar com o respeito com os mortos naquelas guerras, que foram num número muito maior, mas o que caracteriza a atual é a falta de sentido, mesmo que distorcido, que outras guerras tinham. Pensando sobre a “Guerra da Minha Geração” e comparando com as duas últimas, o mais complicado é a dificuldade de saber quem é o inimigo. Não temos dois lados, lutando por seus valores e crenças, temos uma humanidade assustada, governantes confusos criando regras conflitantes e profissionais de saúde lutando para fazer a coisa certa contra uma doença que tem algumas preferências, mas ameaça a todos.

As informações a que tive acesso mostram que minha geração é a que corre maior risco. A Europa está sendo destruída aos poucos, pois tem uma população mais velha. Em outros países, também, a faixa mais afetada e que tem o maior número de mortos é aquela com mais de 65 anos. Na África, com uma população mais jovem, a doença não tem sido tão impiedosa.

O Japão e a Coréia têm lidado relativamente bem com o vírus, mas no Japão o número de suicídios aumentou consideravelmente, principalmente entre as mulheres. A causa? O confinamento e a desesperança.

Estamos todos esperando por uma vacina e os laboratórios têm trabalhado sem descanso nessa busca. Entretanto, essa é uma solução que a mim não tranquiliza completamente. Ah, claro que vou tomar a vacina, pelo menos para que ela me traga mais um pouco de liberdade de movimento e de tranquilidade.

A dúvida que me mantém acordada, noite a pós noite é: “por que todos esses importantes laboratórios investiram tanto esforço numa vacina sem garantia de resultado e não em uma medicação eficaz?” A resposta que me assusta é: “medicamentos serviriam apenas para uma parte da população. Melhor ter vacina, pois todos terão que usar, doentes e não doentes.” Com isso, mais dinheiro irá para essa indústria, da qual todos nós dependemos totalmente.

Espero realmente estar enganada… as teorias da conspiração estão todas aí para escolhermos uma, se quisermos. Se não quisermos, teremos que nos agarrar à esperança e ao otimismo para dormir à noite e iniciar o novo ano acreditando no melhor.

A cada nova onda e novas cepas, vejo mais e mais brigas sem sentido, a politização do assunto, a crueldade com que as pessoas julgam quem não tem a mesma opinião. E, muito depressa, minha fé na humanidade e na sua capacidade de construir um futuro melhor vai se extinguindo. Não quero mais falar sobre o assunto, esse é meu último desabafo.

Sigo na minha vida, curtindo o que ela me traz de bom e agarrando-me a somente a um resquício de esperança. Quem sabe as crianças pequenas, que estão sendo criadas nesse mundo distópico de pessoas mascaradas, serão capazes de construir uma realidade muito melhor, liberando-nos para sorrir outra vez.

Fotos obtidas no google sem indicação de autoria